Espírito revolucionário continua vivo, diz líder das Farc
As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia celebram 40 anos enfrentando uma nova ofensiva militar empreendida pelo governo americano. Em entrevista, Raúl Reyes, da Secretaria Central do Estado Maior das Farc, traz uma visão sobre as lutas da guerrilha.
Stéphanie Gendron
São Paulo – As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia celebram seus 40 anos tendo de enfrentar uma nova ofensiva militar empreendida pelos governos colombiano e norte-americano. Depois de haverem sido acusadas como narcotraficantes, estão agora identificados como terroristas. No entanto, Raúl Reyes, um dos principais membros da Secretaria Central do Estado Maior das Farc, disse que o grupo não teme a derrota e segue com seus mesmos ideais revolucionários.
Em entrevista concedida por correio eletrônico à Agência Carta Maior, Raúl Reyes faz um balanço de sua organização, que soma hoje mais de 18 mil sodados. Traz ainda uma visão sobre a história e as recentes lutas da guerrilha, sob um ponto de vista que costuma não ser divulgado pelos grandes veículos de comunicação.
Carta Maior – As Farc estão celebrando 40 anos. Seus princípios continuam os mesmos até hoje?
Raúl Reyes – Certamente. Há 40 anos, em 27 de maio, iniciou-se a resistência armada legítima em forma de guerra de guerrilhas móveis. Duas mulheres e quarenta e seis homens enfrentaram a operação militar de dezesseis mil soldados do exército governamental que fez uso até de guerra bacteriológica para esterminar esse pequeno grupo de valentes camponeses. Seguimos sendo fiéis às banderas elaboradas no Programa Agrário dos Guerrilheiros, lançado como plataforma de luta nas montanhas de Marquetalia em 20 de julho de 1964, como a luta pela justiça social e econômica, a solução política para o conflito social e armado, a Reforma Agrária e a soberania de nosso país.
CM – Quais são os objetivos finais de sua luta?
RR – Uma Pátria, um Governo e Instituições que construam com o povo um Novo Poder que proporcione o maior grau de felicidade possível. E isto apenas se alcança derrotando o Estado burguês, violento e corrupto, transformando os costumes políticos, criando uma economia soberana e relações internacionais em pé de igualdade, de convivência pacífica e mútuo benefício. Lutamos pela Nova Colômbia, independente, justa, digna e soberana, entendida como uma só Nação, uma só Pátria depositária da justiça social e da paz duradoura e definitiva.
CM – Essa luta poderia ocorrer de forma pacífica?
RR – Meios pacíficos? Gostaríamos muito, mas não se trata apenas de você querer. Uma de nossas bandeiras tem sido, e sempre será, a disposição indeclinável de encontrar um caminho menos custoso para a luta política do povo. Mas isso tem sido praticamente impossível porque jamais governo algum permitiu que o povo dispute o poder e o governo, de igual para igual, com a classe dominante. Em 1985, como fruto dos Acordos de La Uribe firmados com o presidente dessa época, Belisario Betancourt, formamos o movimento político União Patriótica. E foi um êxito, pois em muito pouco tempo de campanha eleitoral foram eleitos 14 parlamentares, 17 deputados e 135 vereadores. O povo estava feliz porque enfim podia eleger seus representantes. Mas veio o massacre. A maioria deles e quatro mil dirigentes do partido foram assassinados, tratando-se de um genocídio sem par contra movimento político algum na Colômbia.
CM – Quantas pessoas estão detidas pelas Farc? Quais as condições para que elas sejam libertadas?
RR – Há 47 prisioneiros de guerra em nosso poder, entre oficiais do Exército e da Polícia. Além deles, mantemos três agentes da CIA (Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos), que foram beneficiados por um gesto de alta sensibilidade humana e receberam status de prisioneiros de guerra, apesar de espiões não serem favorecidos por legislação internacional alguma, o que abriria a porta para a execução sem julgamento algum. Mantemos também outros prisioneiros que só não estão em suas casas por culpa do presidente Uribe Vélez. A Colômbia e a Comunidade Internacional sabem disso.
CM – Como é o funcionamento social e política nas aldeias controladas pelas Farc?
RR – Partimos do respeito à população: seu pensamento político, suas convicções religiosas, seu caráter multiétnico e multicultural, suas organizações de base como cooperativas, sindicatos, ações comunais. Acreditamos que o povo pode e deve criar mecanismos de participação administrativa. Temos experiências sociais importantes que nos demonstram que as pessoas humildes possuem um alto nível de consciência política, de vontade firme de trabalhar na construção de uma pátria sem exploradores nem explorados. Esta realidade é o maior indicativo do que podemos chamar dos alicerces do Novo Estado, do Novo Poder, do Novo Governo.
CM – Qual é o território controlado pelas Farc? Quantos habitantes vivem neste território? Na opinião de vocês, o apoio do povo está crescendo?
RR – Em todas as regiões do país estão presentes guerrilheiras e guerrilheiros das Farc – Exército do Povo, atuando política, social, cultural e militarmente. Esta tarefa de transformação social está destinada à educação política e à organização do povo em campos e cidades grandes, médias e pequenas. É um processo lento e cuidadoso, por razões óbvias. Mas, sim, avançamos! Nosso compromisso é ganhar o coração e a mente do nosso povo. Isto deixa a vitória mais próxima!
CM – Como o problema do narcotráfico acabou sendo relacionado com as Farc?
RR – Na política externa do governo americano, encontramos costumes sujos, jamais imaginados. Sua política de guerra suja e de ingerência descarada nos assuntos internos de nossos países somente nos trás desastres, miséria, dor e morte. E se em algum país o povo se põe em pé de luta contra esta infâmia, declara-se contra ele, sem misericórdia, a guerra, começando pela psicológica. Primeiro fomos chamados de anti-sociais, bandoleiros, facínoras. Nos últimos anos, narco-guerrilheiros e terroristas. É uma ofensiva brutal através dos meios de comunicação. Mas há uma coisa. A guerra real pela liberdade, a soberania e a independência se faz nas trincheiras; não se ganha na televisão, nem com jornais ou epítetos ofensivos, nem com mentiras oficiais.
CM – Qual é o vínculo de vocês com o narcotráfico?
RR – Por ideologia, por ética, não temos nenhum vínculo. O narcotraficante é um negociante sem escrúpulos, que busca somente ficar rico em pouco tempo. Para ele, não há nenhum inconveniente em torturar, desaparecer com ou assassinar quem impeça seu negócio. O narcotráfico é um negócio do capitalismo e nós combatemos com todas as forças este sistema injusto. Além disso, as Farc existem antes do negócio do narcotráfico existir. Como dissemos, o império sempre busca nos deslegitimar e desprestigiar.
CM – Qual é sua avaliação do narcotráfico como problema nacional?
RR – Todo problema tem solução. O do narcotráfico também. Mas o Estados Unidos necessita deste problema como pretexto que justifique sua ingerência nos assuntos internos de nossos países. Estamos certos de que, na Colômbia, uma reforma agrária revolucionária será uma importante ajuda para solucionar este problema.
CM – Por que nunca houve um diálogo entre as Farc e o presidente Uribe?
RR – Porque Uribe é um fascista convencido de que com o terrorismo de Estado deixará o povo de joelhos ante o poder da classe dominante e ante o império. Sua opção foi a guerra, nas a busca do entendimento entre os colombianos. Ele é isso e nós sabemos bem. Da parte das Farc sempre haverá, como já temos demonstrado, plena disposição para buscar saídas políticas para o conflito interno baseadas no diálogo. Mas ninguém conseguirá a rendição nem o abandono de nossos princípios e de nossas convicções revolucionárias.
CM – O governo de Uribe iniciou uma nova ofensiva militar que envolve mais de 15 mil soldados e um financiamento de parte dos Estados Unidos por meio do Plano Patriota. Segundo vocês, quais serão as repercussões deste plano?
RR – Com a ajuda do governo dos Estados Unidos, a oligarquia colombiana está desenvolvendo uma gigantesca operação denominada Plano Patriota, com a vã pretensão de dar um duro golpe à nossa organização revolucionária. Este plano já existe há vários meses e nossas unidades guerrilheiras estão respondendo com grande entusiasmos e contundência. Esperamos atingir bons resultados que, em seu momento, tornaremos públicos.
CM – Por que o governo realiza este plano agora? Está aproveitando um momento de fraqueza da sua organização?
RR – É porque Uribe precisa apresentar resultados ao seu “amo do norte” em sua guerra contra o povo, tem que demonstrar qual o cão de guarda que está defendendo seus interesses imperialistas; é obrigado a justificar os milhões de dólares investidos por George Bush na guerra contra o povo colombiano.
CM – Com o Plano Patriota, existe uma possibilidade das forças armadas derrotarem as Farc?
RR – Na guerra, existem baixas de todas as partes, isso é inegável. Mas uma derrota? Há quarenta anos estão buscando isso, mas nada até agora... Em troca, para ocultar os golpes que recebem de nossa parte, retiram seus mortos de onde aconteceu o combate, os levam para outro lugar e os apresentam como mortos por fogo amigo. Tamanha irresponsabilidade. Isso realmente é uma vergonha. Na mesma lógica de negar seus mortos, muitas vezes eles os apresentam à mídia como guerrilheiros mortos pelas tropas oficiais.
CM – O governo está negociando agora com os paramilitares? Como você vê estas negociações?
RR – É uma negociação entre “mim e eu mesmo”. Não existe negociação e sim reacomodação das hordas de assassinos filhos da oligarquia a que servem. Quando já não lhe servem mais, os matam... exemplos não faltam...
CM – Quais são as condições para que se estabeleça um acordo de paz sustentável? Você acredita que isso poderia ser alcançado logo ou será preciso lutar mais 40 anos?
RR – Um acordo de paz, para que seja duradouro e estável, deve compreender a solução política do conflito e o compromisso do Estado para erradicar as causas que o originaram. Isso somente será realidade com um novo governo, patriótico, amplo e democrático, a serviço dos interesses dos trabalhadores, do povo humilde e explorado pela oligarquia e pelas multinacionais.
CM – Os outros países e organizações internacionais têm um papel neste conflito?
RR – Na Colômbia existe um conflito interno muito complexo alimentado pela dominação, a imposição e a violência da oligarquia bipartidária contra o povo para defender seus interesses e os do império. Isto começa a ser compreendido por organizações internacionais e alguns governos começam a olhar mais de perto o que acontece na Colômbia. Duas coisas confirmam esta tendência: a importante guinada conjunta realiza pela Europa e a Audiência Pública Internacional, da qual participaram 27 países e onde se organizou um grupo de nações amigas do Processo de Paz. Andrés Pastrana, presidente da Colômbia de 1998 a 2002, se retirou da comunidade internacional porque a desconsiderou quando rompeu os diálogos. E seu sucessor está fazendo o mesmo. Da nossa parte, dizemos: tudo que contribua para a conquista da paz com justiça social será bem-vindo, e tudo o que apóie a guerra terrorista do governo contra o povo será repudiado, venha de onde venha.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
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